top of page
Buscar

Importância da formação integral do neurocirurgião

  • Foto do escritor: LABN
    LABN
  • 17 de mar.
  • 4 min de leitura

Desafios e propostas para o Brasil


Tenho dedicado minha carreira à prática clínica e à formação dos profissionais que, assim como eu, acreditam na necessidade de uma formação integral. Para mim, ser um bom neurocirurgião exige muito mais que o domínio técnico-científico: é preciso desenvolver competências clínicas, aprimorar habilidades operatórias e, sobretudo, cultivar uma formação humana que permita uma relação ética e empática com os pacientes.


No entanto, o Brasil enfrenta o desafio da concentração dos recursos e infraestrutura nos grandes centros urbanos, o que dificulta tanto o acesso ao treinamento de qualidade quanto a utilização de equipamentos modernos em regiões mais afastadas. Por isso, defendo uma reestruturação do sistema de saúde que promova a descentralização dos recursos e a interiorização do atendimento, integrando o cuidado básico com a referência a centros especializados conforme a complexidade dos casos.


Formação clínica: a base para decisões precisas


O principal alicerce da prática médica reside na formação clínica. O profundo conhecimento da anatomia, fisiologia e das diversas patologias do sistema nervoso é indispensável para que possamos identificar, precocemente, sinais que indiquem quadros de gravidade. Essa competência é fruto de um estudo contínuo e de uma prática clínica intensa, que permite interpretar exames e realizar avaliações criteriosas dos pacientes.

Contudo, o acesso a esse tipo de formação concentra-se, na maior parte, em grandes centros, onde há hospitais de referência e uma maior exposição a casos complexos. Essa realidade cria uma disparidade: os profissionais de regiões interioranas muitas vezes não têm as mesmas oportunidades para se aperfeiçoar. Assim, vejo com urgência a necessidade de políticas públicas que descentralizem, garantindo que médicos de todos os cantos do país possam participar de programas de atualização e ter contato com uma diversidade de doenças.



Formação técnica: aperfeiçoamento operatório e inovação


A habilidade técnica é outro pilar essencial na neurocirurgia. Em cada sala de cirurgia, aprendi que a destreza manual, aliada ao domínio das técnicas operatórias e ao uso correto de equipamentos modernos, faz a diferença entre um procedimento bem-sucedido e complicações evitáveis. A importância de treinar com simuladores, ambientes virtuais com hands-on, permitem ao cirurgião desenvolver a confiança necessária antes de operar em pacientes reais.

Entretanto, a concentração dos recursos tecnológicos nos grandes centros dificulta o acesso de muitos profissionais a treinamentos de ponta. A falta de infraestrutura tecnológica não só compromete a formação, mas também a segurança dos pacientes, que podem ser submetidos a procedimentos com equipamentos desatualizados. Por isso, defendo que seja feito um investimento robusto em parcerias entre instituições de ensino, governos estaduais e o setor privado, a fim de viabilizar centros de treinamento modernos em todo o país. Essa medida é fundamental para que cada neurocirurgião, independentemente de sua localização, tenha a oportunidade de se aperfeiçoar tecnicamente.


Formação humana: ética, empatia e relação médico-paciente


Além do conhecimento técnico e da prática clínica, acredito que a formação humana é o grande diferencial de um profissional completo. A empatia, a escuta ativa e uma postura ética são indispensáveis para estabelecer uma relação de confiança com os pacientes. Na neurocirurgia, onde lidamos com riscos elevados e, por vezes, prognósticos incertos, oferecer suporte emocional e comunicar de forma clara e humanizada é tão importante quanto a precisão do diagnóstico ou a habilidade cirúrgica.

Infelizmente, o modelo tradicional de ensino médico costuma dar ênfase quase exclusiva ao conhecimento científico, deixando em segundo plano o desenvolvimento das competências sócio-emocionais. Por essa razão, defendo que os currículos das especializações incluam, de forma sistemática, programas de treinamento voltados à humanização do atendimento. Oficinas de comunicação, seminários sobre ética médica e grupos de mentoria são exemplos de iniciativas que, em minha visão, podem transformar a prática clínica, proporcionando não só um melhor cuidado ao paciente, mas também um ambiente de trabalho mais equilibrado e sustentável para os profissionais.


Descentralização e interiorização: superando desafios estruturais


Um dos grandes entraves que identifico no cenário atual da saúde no Brasil é a centralização dos recursos em grandes centros urbanos. Essa concentração não só limita a formação dos profissionais, mas também compromete a qualidade do atendimento à população residente em áreas menos favorecidas. Para oferecer um serviço de saúde verdadeiramente inclusivo, é imprescindível investir na criação e no fortalecimento de unidades de saúde capazes de realizar atendimentos básicos e de fazer uma triagem eficiente dos casos.

A ideia de interiorizar o atendimento significa que o paciente deve ter acesso a uma avaliação inicial próxima de sua residência. Dessa forma, os casos menos complexos podem ser tratados localmente, enquanto aqueles que demandam maior especialização são encaminhados para centros com infraestrutura adequada. Essa abordagem horizontal não elimina a necessidade de centros de referência, mas sim os integra a uma rede colaborativa, onde o contra referenciamento e a transferência dos casos ocorrem de maneira organizada e segura.


Horizontalização e verticalização: um modelo integrado de atendimento


O modelo ideal de atendimento combina a horizontalização e a verticalização dos serviços de saúde. Em pequenos municípios, a criação de unidades de saúde bem estruturadas é fundamental para o atendimento imediato e para a identificação precoce de quadros que exigem maior complexidade. Esse modelo horizontal permite que o paciente seja avaliado rapidamente, evitando longos deslocamentos e tratamentos inadequados.

Por outro lado, a verticalização – realizada em centros de alta complexidade – garante que os casos que necessitam de intervenções sofisticadas sejam tratados com a máxima qualidade. Para que essa integração funcione, é necessário investir não só em infraestrutura, mas também na capacitação contínua dos profissionais, utilizando ferramentas como a telemedicina e promovendo intercâmbios entre as instituições. Essa estratégia integrada fortalece a rede de saúde e assegura que cada cidadão receba o atendimento adequado conforme a sua condição, promovendo uma assistência mais democrática e eficaz.


Compromisso com a excelência e a democratização do acesso


Convido meus colegas, gestores e demais profissionais a se unirem na implementação de políticas que promovam a democratização dos recursos, a capacitação contínua e a criação de redes de atendimento integradas. Somente com um esforço coletivo conseguiremos construir um sistema de saúde verdadeiramente inclusivo e eficiente, capaz de atender às necessidades de toda a população.

Investir na formação integral do neurocirurgião é investir no futuro da saúde no Brasil. Ao oferecer oportunidades iguais de aperfeiçoamento e promover uma prática médica que valorize a técnica, o conhecimento clínico e a humanidade, estaremos não apenas elevando a qualidade dos tratamentos, mas também fortalecendo a relação de confiança entre médico e paciente. Essa transformação é um compromisso ético e profissional que trará benefícios duradouros para nossa sociedade e para as futuras gerações de profissionais da saúde.

 
 
LABN LOGO NOVA BRANCA.png
Copyright © Liga Acadêmica Brasileira de Neurocirurgia. 2024. Todos os direitos reservados.
bottom of page